por Luciano Milhomem -
Para o ex-ministro da Educação e atual senador, só há futuro com investimento na Educação de base
A menina dos olhos do senador Cristovam Buarque chama-se Educação. Fala apaixonadamente sobre o tema. Faz duras críticas à situação do Brasil nesse campo, mas também apresenta sugestões. A mais recente, que tem empolgado o senador do PDT-DF, em plena campanha para reeleição, é o Projeto de Lei 320/08, que cria o Programa Federal de Educação Integral de Qualidade para Todos e a Carreira Nacional do Magistério da Educação de Base. A proposição já foi aprovada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e agora tramita na Comissão de Educação do Senado.
Pernambucano, 66 anos, casado e pai de duas filhas, Cristovam cursou a Escola de Engenharia do Recife, de onde partiria, em plena ditadura militar, para o doutorado em Economia na Sorbonne, em Paris. Após trabalhar para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), tornou-se professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), da qual viria a ser, anos mais tarde, o primeiro reitor eleito democraticamente.
Sua atuação na UnB projetaria nacionalmente tanto a universidade quanto o próprio Cristovam, que acabaria eleito governador do Distrito Federal. À frente do Poder Executivo local, aliou sua vocação tanto para a política quanto para a educação e lançou, no DF, o programa Bolsa-Escola, que, poucos anos depois, estimularia iniciativas semelhantes, inclusive no nível federal.
Fora do Governo do DF a partir de 1999, criou a organização não-governamental Missão Criança, que daria sobrevida à Bolsa-Escola, até que o governo federal adotasse programa semelhante. Em 2003, Cristovam, já senador, tornou-se ministro da Educação do governo Lula. Atualmente, autor de 20 livros, segue erguendo alto a bandeira da Educação.
Na entrevista exclusiva ao Canal de Notícias da Sangari Brasil, Cristovam demonstra preocupação quanto ao desempenho dos estudantes brasileiros em avaliações nacionais, defende a carreira nacional do magistério e a educação em horário integral, e enfatiza: “O Brasil não vai resolver o problema da Ciência e da Tecnologia se não resolver antes o problema da educação de base. Ninguém faz um cientista da noite para o dia. É preciso começar cedo, desde a infância. Se não investirmos na formação das crianças, vamos fracassar.”
Como o senhor avalia os recentes resultados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)?
Como se fosse um terremoto de elevado grau na Escala Richter. Uma tragédia. Esses resultados mostram que o Brasil é um país em risco, pois se mostra incapaz de entrar no século 21, de concorrer economicamente e com justiça social.
No âmbito da educação, qual deveria ser a prioridade do Brasil agora?
Não se trata de se estabelecerem prioridades, mas estratégias. Há duas ações fundamentais que defendo: criar a carreira nacional do magistério e implementar um programa federal de educação em horário integral. A criação da Carreira Nacional do Magistério seria uma forma de melhorar os salários dos professores e tornar essa profissão mais atraente. O professor seria um servidor aprovado em concurso público federal e remunerado com recursos federais. Por esse programa, faríamos concursos federais para escolher 100 mil professores a cada ano. São 250 cidades no Brasil que receberiam 100 mil professores, daí teríamos 10 mil escolas, 3 milhões de crianças. A cada ano, mais 100 mil professores, mais 250 cidades, mais 10 mil escolas. Em 20 anos, teríamos o programa em todas as escolas do Brasil, inclusive com a adoção do horário integral. Seria uma revolução nessas cidades. O Programa Federal de Educação Integral de Qualidade para Todos prevê que todas as escolas de ensino fundamental dos municípios escolhidos teriam horário integral em todas as suas escolas, professores com salários elevados, com dedicação exclusiva, selecionados em concurso público federal.
A Espanha está tentando implementar uma política de Estado para a Educação. Não tem sido fácil. O senhor acha que isso viável no Brasil?
Viável, sim. Fácil e rápido, não. Seria necessário haver um diálogo entre o governo e as corporações. Um pacto, como houve na Irlanda.
O Ministério da Ciência e da Tecnologia já deu início à elaboração de uma política de Estado para esse setor. Em que o Brasil vai bem e no que precisa avançar nesse campo?
O Brasil não vai resolver o problema da Ciência e da Tecnologia se não resolver antes o problema da Educação de base. Ninguém faz um cientista da noite para o dia. É preciso começar cedo, desde a infância. Se não investirmos na formação das crianças, vamos fracassar.
De que forma Educação e C&T podem conciliar interesses na sala de aula? Os estudantes brasileiros lhe parecem preparados para os desafios da sociedade contemporânea nesse aspecto? A saída é começar [o preparo dos estudantes] já na primeira idade. Os adolescentes estão viciados na anti-escola. A revolução deve começar pelo ensino fundamental.
Qual deve ser o esforço de toda a sociedade brasileira para melhorar a educação pública no Brasil?
Em outras palavras, de que maneira cidadãos, empresas, gestores públicos, líderes sociais e políticos podem se envolver em um esforço conjunto pela melhoria da educação? Elegendo uma base política preparada para fazer a federalização da educação de base.
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